Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Ainda os medos

por O Arrumadinho, em 15.05.13

Diz a minha mulher no post anterior que eu sou um daqueles optimistas incapazes de ver o lado negro das coisas, que acham que vai correr sempre tudo bem, levando o comentário quase ao limite de uma suposta irresponsabilidade da minha parte.

Sou optimista porque sim, porque é assim que sinto as coisas, não porque um dia decidi que deveria ser extremamente positivo. É algo que me é inato e não sei como o contrariar (nem quero). A vida tem-me demonstrado que esta atitude é a mais adequada, porque se tenho de sofrer com uma coisa negativa, então, sofro quando ela acontece, e não com duas semanas, dois meses ou um ano de antecedência.

 

Há um caso que ilustra bem isto. Nos últimos cinco anos de vida, o meu avô esteve várias vezes doente e foi algumas vezes hospitalizado. Ao longo desse período recebi várias chamadas de pessoas da minha família a dizerem-me que deveria ir imediatamente vê-lo porque não deveria passar dessa noite. Por várias vezes o fiz. Foram muitas as semanas que vivi amargurado à espera do dia em que o telefonema chegaria com a notícia que eu não queria. O tempo passava, ele melhorava, voltava para casa e uns tempos depois lá estava, nos jantares de família, mais frágil, mas vivo e sereno. Um dia, achei que deveria deixar de sofrer por antecipação. Não há como nos prepararmos para uma desgraça. Por mais que saibamos que ela vai acontecer, quando chegar a hora, vai-se o chão, ficamos suspensos numa dor que não se antecipa nem prepara. O dia chegou, e eu sabia que iria chegar por essa altura, mas, tal como previa, isso não chegou para atenuar o choque, o sentimento de perda. 

 

A vida ensinou-me e preparou-me para ser optimista e positivo. É uma característica minha, que me acompanhará sempre.

 

Agora vamos a questões práticas. Como é que um homem deve reagir perante os medos da mulher? É preferível acentuá-los ou diminui-los? É preferível tranquilizar a mulher ou deixá-la ainda mais apavorada? Eu sempre achei que a melhor atitude a tomar seria a de encaixar esses medos num cenário positivo, de harmonia e tranquilidade. Pelos vistos, achei mal. Se calhar há alturas em que devemos ficar os dois a chorar, em pânico, apavorados com um cenário que muito provavelmente não se concretizará.

 

Ser pai (ou mãe) pela primeira vez é diferente de ser pai (ou mãe) uma segunda vez. Eu já fui pai, já passei pela fase do desconhecimento total, já aprendi, já experienciei, sobrevivi, e isso dá-me a calma que é precisa para voltar a passar por tudo outra vez. Não tenho medo de dar banho ao bebé nem de lhe partir um braço porque já o fiz centenas de vezes, não tenho medo de não gostar do bebé porque sei como nasce e cresce o amor de um pai por um filho, não tenho medo de ficar sem vida própria porque sei o que é preciso fazer para que isso não aconteça, não tenho medo de noites mal dormidas porque já sei o que isso é - e suporta-se -, não tenho medo que ele venha a ser um puto mal educado, porque acho que a educação depende, em grande parte, de nós, pais, por isso, sei que serei responsável e que lhe darei as bases de que necessita. Não tenho, verdadeiramente, medo de nada. Não tenho porque me conheço, porque sei do que sou capaz, porque tenho um espírito suficientemente altruísta para colocar o bebé à frente do meu conforto, de umas horas de sono, de umas viagens, de umas tralhas que deixarei de comprar. Não tenho medo do futuro porque quero acreditar que o futuro é feito por mim no presente, e sei que sou capaz de lutar até ao limite das minhas forças para que nunca me falte sustento, nem aos meus filhos. Acredito em mim e nas minhas capacidades, e acho que é isso que me dá a segurança de que preciso para enfrentar todos os aspectos da vida com optimismo.

 

Agora, ser optimista é muito diferente de ser irresponsável. Há mil e uma coisas que eu não sei e que irei enfrentar quando o Mateus nascer. Surgirão desafios novos, situações diferentes, obstáculos, problemas, dificuldades, porque isso acontece sempre. E isso preocupa-me. Apavoram-me, por exemplo, doenças graves e incuráveis. Mas a única forma de lidarmos com esses medos é não pensarmos neles. O alheamento é, muitas vezes, uma defesa essencial à nossa clarividência e sanidade. Se formos pensar em tudo o que pode correr mal, então, acabaremos loucos.

 

Ser pai é, também, ser adulto. E isso sei que sou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:45


32 comentários

De sn a 15.05.2013 às 07:49

Apavorizam me ou apavoram me?

De Cris a 15.05.2013 às 09:50

Like a lot!!

Quando puderes escreve um post sobre pensar positivo ou como não sofrer por antecipação.
Agradecida:)

De Anónimo a 15.05.2013 às 09:53

Olá Ricardo e Ana, falo vos como gravida apavorada que fui em relação a tudo, isto porque além de ter desenvolvido muitos medos , parecia que só aconteciam desgraças à minha volta com os bebes dos outros, e claro, eu só pensava \" se aconteceu com eles pode muito bem acontecer cmg\" .... Felizmente nada aconteceu e os medos só se dissiparam no parto qd vi que tudo estava bem... No entanto foi fundamental o meu marido no processo, que sempre tentou dissipar os meus medos e tb reagi conforme a Ana, achei que ele era desinteressado, mas hoje em dia sei que aquele foi o papel que ele assumiu e de fato foi o melhor que podia ter feito, caso contrario teria dada em louca... Por isso, Ricardo vai ver que a Ana daqui a uns neste vai perceber e agradecer a sua atitude . Felicidades

De Fio a Pavio a 15.05.2013 às 09:53

Vou guardar para mostrar ao senhor que mora cá em casa... mais um texto que presta um excelente serviço publico. Obrigada Ricardo

De Karrapetas a 15.05.2013 às 09:55

Excelente post!
Também sou uma optimista sem cura e isso julgo ser meio caminho andado para que tudo corra bem!
Muitos parabéns aos pipocas e ao vosso mati.

De Anónimo a 15.05.2013 às 10:09

Ora muito bem, era bom que todos tivessem este discernimento!
Adorei!

De Ana a 15.05.2013 às 10:10

É sempre bom quando um elemento do casal contrabalança com o outro. Ajuda a tranquilizar não dramatizar e acreditar que vai correr tudo bem. Penso que a questão reside na diferença entre tranquilizar ou desvalorizar. Há quem diga "eu acho que vai correr tudo bem, estamos juntos nisto" e quem diga "não penses nisso, estás sempre a criar cenários negros". Isto aplica-se em várias situações. É terrível dizer a alguém que está num processo de luto que "tem de seguir em frente, a vida continua". Já dizer "percebo o que estás a sentir, acredito que com o tempo vai doer menos" é completamente diferente. Na primeira situação naõ estamos a respeitar a dor da pessoa, é como se ela não a pudesse sentir, porque afinal de contas racionalmente até é verdade e a vida tem de continuar. Na segunda, "admitimos" a dor da pessoa, não a colocamos em causa.
São exemplos que demonstram que ao sermos positivos, podemos ser empáticos ou não, independentemente da nossa forma de sentir o mundo. No meu caso, o meu marido também é muito positivo, mas sabe-me bem quando ele percebe o que estou a sentir, mesmo que ele não sinta de forma idêntica. Assim, ele ajuda-me a não dramatizar ao mesmo tempo que não desvaloriza.

De Mars a 16.05.2013 às 10:50

Ana adorei este seu comentário, é exactamente isto que penso mas nunca o consegui articular em palavras, obrigado :)

De Anónimo a 15.05.2013 às 10:53

Gostei muito de ler o seu post e concordo muito consigo - a sua experiência nesta gravidez não é seguramente a mesma da sua mulher, na medida em que para ela é tudo novo e para si não. Isso é evidente e isso dá-lhe uma clama e tranquilidade diferentes.
Mas não se engane: as experiências podem ser completamente diferentes e o facto de ter sabido o que fazer com o primeiro filho não quer dizer que saiba o que fazer com o segundo, pelo simples motivo de que a mesma receita pode não resultar porque eles são crianças diferentes.
Por outro lado, a nossa calma permite-nos ser menos exigentes com os segundos filhos.

Mas acho sobretudo que o que a sua mulher pretendia não era que chorasse com ela, como refere, mas apenas que ouvisse o que ela tem para lhe dizer sem necessidade de lhe dizer palavras de conforto.

Deixe-a dizer quais são os verdadeiros medos dela, por mais absurdos e inconcebíveis que possam parecer, sem ter de lhe dizer qualquer coisa como: "não te preocupes com isso, andas a ver filmes a mais". Ela não quer ouvir nada, ou eventualmente apenas um: quando chegar a altura, se isso acontecer, logo veremos o que fazer. Adaptamo-nos.

Por outro lado, acho sinceramente que ninguém o considera irresponsável, muito menos a sua mulher, por ser optimista. Mas também é verdade que as pessoas que pensam nas eventualidades estão mais preparadas, ainda que apenas só um pouco mais, para as coisas.
De nada vale pôr a cabeça na areia e achar que é tudo um mar de rosas, porque não é. Mas uma coisa não invalida a outra - ser previdente e optimista.

E sem dúvida que uma atitude positiva contribui muito mais para que as pessoas sejam felizes do que uma atitude negativa, sobretudo porque a felicidade, para mim, reside na capacidade de aceitarmos de bom grado aquilo que a vida nos traz.

De Inês Dunas a 15.05.2013 às 11:19

Ser optimista é óptimo , ser empático também! Claro que me parece sensato tranquilizar os medos das futuras mamãs (e papás) em vez de nos metermos a conjecturar cenários ainda mais negros, do género:
"Mamã: Ai se nasce sem um dedo...
Papá: E pior ainda se nasce sem uma mão?..."
Mas as mulheres são de Vénus e os homens são de Marte e nem sempre as soluções que um dos géneros preferem são as que servem ao outro...
Quando estamos grávida tudo piora!
As hormonas devoram-nos e devoram-vos!!!
Se nos dizem que esta tudo bem, achamos que estão a desvalorizar o que sentimos, se compartilham os nossos receios é porque estão com medo do que aí vem, o turbilhão de emoções é tão avassalador que nos atropela... E depois há ainda o:
"E se ele está muito melhor preparado do que eu e eu faço tudo mal..."
No seu caso já tem experiência, ela não e isso também a deve assustar um bocadinho... Ela pensar que você saberá sempre o que fazer e ela andará ali aos papeis... Mas a verdade é que você nem sempre saberá o que fazer, nem ela e o importante é que ela o saiba e que lhe afiance que o hão de descobrir juntos!
E na verdade confesse lá que já não se lembra muito bem como é assustador dar banho a um recém-nascido, já passou algum tempo! ;)
A minha só tem 19 meses e eu confesso que já não me lembro bem e quando voltar a fazê-lo vou ter de respirar fundo antes!
Beijinhos aos futuros papás e ao baby!


De Elsa a 15.05.2013 às 12:06

Estou grávida pela 2ª vez e revejo-me inteiramente no que disse. Não sou uma pessoa tão segura de mim e das minhas capacidades, mas dificilmente sofro por antecipação, o que é óptimo! Se um dia acontecer algo terei de lidar com isso, mas não vivo a pensar e a sofrer por ser uma possibilidade. Não sou mesmo de sofrer por antecipação!
Claro que continuo com alguns medos em relação ao filhote que aí vem, e compreendo muita da ansiedade da Pipoca, mas realmente é bom ela poder contar consigo e com a sua segurança. Penso que o que de facto é muito importante, o papel a assumir pelas pesssoas junto da Pipoca ou de outras pessoas assim ansiosas, seja: não desprezar os seus receios mas também não os alimentar!

Comentar post


Pág. 1/4






Digam-nos coisas

apipocamaisdois@gmail.com

Pesquisar

Pesquisar no Blog  


Arquivos

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D