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Diz a minha mulher no post anterior que eu sou um daqueles optimistas incapazes de ver o lado negro das coisas, que acham que vai correr sempre tudo bem, levando o comentário quase ao limite de uma suposta irresponsabilidade da minha parte.
Sou optimista porque sim, porque é assim que sinto as coisas, não porque um dia decidi que deveria ser extremamente positivo. É algo que me é inato e não sei como o contrariar (nem quero). A vida tem-me demonstrado que esta atitude é a mais adequada, porque se tenho de sofrer com uma coisa negativa, então, sofro quando ela acontece, e não com duas semanas, dois meses ou um ano de antecedência.
Há um caso que ilustra bem isto. Nos últimos cinco anos de vida, o meu avô esteve várias vezes doente e foi algumas vezes hospitalizado. Ao longo desse período recebi várias chamadas de pessoas da minha família a dizerem-me que deveria ir imediatamente vê-lo porque não deveria passar dessa noite. Por várias vezes o fiz. Foram muitas as semanas que vivi amargurado à espera do dia em que o telefonema chegaria com a notícia que eu não queria. O tempo passava, ele melhorava, voltava para casa e uns tempos depois lá estava, nos jantares de família, mais frágil, mas vivo e sereno. Um dia, achei que deveria deixar de sofrer por antecipação. Não há como nos prepararmos para uma desgraça. Por mais que saibamos que ela vai acontecer, quando chegar a hora, vai-se o chão, ficamos suspensos numa dor que não se antecipa nem prepara. O dia chegou, e eu sabia que iria chegar por essa altura, mas, tal como previa, isso não chegou para atenuar o choque, o sentimento de perda.
A vida ensinou-me e preparou-me para ser optimista e positivo. É uma característica minha, que me acompanhará sempre.
Agora vamos a questões práticas. Como é que um homem deve reagir perante os medos da mulher? É preferível acentuá-los ou diminui-los? É preferível tranquilizar a mulher ou deixá-la ainda mais apavorada? Eu sempre achei que a melhor atitude a tomar seria a de encaixar esses medos num cenário positivo, de harmonia e tranquilidade. Pelos vistos, achei mal. Se calhar há alturas em que devemos ficar os dois a chorar, em pânico, apavorados com um cenário que muito provavelmente não se concretizará.
Ser pai (ou mãe) pela primeira vez é diferente de ser pai (ou mãe) uma segunda vez. Eu já fui pai, já passei pela fase do desconhecimento total, já aprendi, já experienciei, sobrevivi, e isso dá-me a calma que é precisa para voltar a passar por tudo outra vez. Não tenho medo de dar banho ao bebé nem de lhe partir um braço porque já o fiz centenas de vezes, não tenho medo de não gostar do bebé porque sei como nasce e cresce o amor de um pai por um filho, não tenho medo de ficar sem vida própria porque sei o que é preciso fazer para que isso não aconteça, não tenho medo de noites mal dormidas porque já sei o que isso é - e suporta-se -, não tenho medo que ele venha a ser um puto mal educado, porque acho que a educação depende, em grande parte, de nós, pais, por isso, sei que serei responsável e que lhe darei as bases de que necessita. Não tenho, verdadeiramente, medo de nada. Não tenho porque me conheço, porque sei do que sou capaz, porque tenho um espírito suficientemente altruísta para colocar o bebé à frente do meu conforto, de umas horas de sono, de umas viagens, de umas tralhas que deixarei de comprar. Não tenho medo do futuro porque quero acreditar que o futuro é feito por mim no presente, e sei que sou capaz de lutar até ao limite das minhas forças para que nunca me falte sustento, nem aos meus filhos. Acredito em mim e nas minhas capacidades, e acho que é isso que me dá a segurança de que preciso para enfrentar todos os aspectos da vida com optimismo.
Agora, ser optimista é muito diferente de ser irresponsável. Há mil e uma coisas que eu não sei e que irei enfrentar quando o Mateus nascer. Surgirão desafios novos, situações diferentes, obstáculos, problemas, dificuldades, porque isso acontece sempre. E isso preocupa-me. Apavoram-me, por exemplo, doenças graves e incuráveis. Mas a única forma de lidarmos com esses medos é não pensarmos neles. O alheamento é, muitas vezes, uma defesa essencial à nossa clarividência e sanidade. Se formos pensar em tudo o que pode correr mal, então, acabaremos loucos.
Ser pai é, também, ser adulto. E isso sei que sou.